quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O livro e o anel

Em uma ocasião, num fim de tarde de outono, duas senhoras se encontraram. A maioria das pessoas diria que por obra do acaso. Uma era triste, a outra, alegre. Reclamava aquela que já no final da vida, o destino lhe pregara uma peça. Dizia que, durante toda a sua existência, guardara a sete chaves um anel de ouro, herdado da avó. E que, agora, não importava o quanto se esforçasse, não conseguia encontrá-lo. O anel se perdera para sempre, e ela se preocupava muito, pois não deixaria nada para a neta, quando partisse.
Compadecida com a tristeza de sua nova amiga, a sorridente senhora contou que sua família sempre fora muito pobre e que seu avô, ao morrer, deixara apenas um velho livro de folhas amareladas. Esse livro, segundo ela, continha estórias muito bonitas e durante anos, o velho entretinha os filhos e os netos, com suas estórias. Todos, na família, as sabiam de cor. E, mais tarde, quando o velho avô partira, todos ficaram satisfeitos com o seu dote.
Sem entender o que poderia haver em comum entre um velho livro sem valor e um valioso anel de ouro, a melancólica senhora lamentava a perda do seu bem mais precioso. E, agora, que o anel já não estava em suas mãos, acabara, também, o seu legado. E chorou.
Imediatamente, a outra começou a mexer em sua bolsa e, após procurar um pouco, tirou dali um livrinho muito singelo, de aparência envelhecida. E, levantando-se, estendeu a mão para a amiga, oferecendo-lhe o antigo exemplar. Surpresa com o que a outra lhe ofertava, visto que esperava um lenço, a triste senhora de olhos vermelhos retrucou, dizendo que não poderia aceitar o presente, pois, dessa maneira, perderiam, as duas, de uma só vez, toda a sua herança.
Enxugando delicadamente o rosto da amiga, a serena senhora lhe pediu que ficasse com o livro, uma vez que, diferentemente do anel de ouro perdido - único e indivisível objeto - aquele velho livro sem valor, milagrosamente, já havia se multiplicado inúmeras vezes e que, todas as pessoas que ouviram suas estórias, levavam consigo um exemplar do mesmo, guardado, em suas memórias. E que, ali, naquele momento, mais uma vez, o velho livro se multiplicava. Ela não o perdia, portanto, apenas o compartilhava.
Despediram-se, as duas amigas, e a alegre senhora foi embora, dançarolando discretamente por sobre as folhas daquele fim de tarde de outono. E nunca mais se encontraram.

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